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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

uMÁ CRÔnica

Hoje, eu ri ao compreender que sou ser civilizado. Ser civilizado, sim! E a quinze metros debaixo da terra, junto a outros seres. Gente espremida e se espremendo, comprimida e apressada a passos lentos.

Ri, ao lembrar-me com certa nostalgia de quando eu era bicho e, junto a outros bichos, andava livre pelos pastos tomando água na bica. A testa suada. O corpo suado. A garganta seca. E, a água borbulhando do solo: límpida, pura e cristalina. Debruçava-me com quatro patas. A boca dentro dágua sorvendo aquele líquido frio e cristalino. O corpo refrigerado.

Mas hoje! Hoje sou ser civilizado lembrando-me das corridas pelos campos e do estômago pedindo-me comida. A casca arrancada aos dentes. A polpa doce escorrendo pelos cantos da boca. Bons tempos de bicho, aqueles. Pés de goiaba. Goiaba vermelha. Cheirosa. Das boas... As bananas na bananeira. Pés de Ponkan, laranja-lima, baiana, pêra... E as pereiras. Quantos frutos. E eu, um bicho correndo entre outros bichos atrás de uma bola. Pique-esconde. Salva-latas. Mãe-da-rua. Pula-cela. Mocinhos e bandidos perdendo-se pelas entranhas das matas. Tantos tiros, e ninguém morrendo. Bicho não sente ódio. Ou será que sente? Ainda existia cipós, vagalumes, sapos-boi, pererecas, lacraias... Quantos risos e quantos bichos...

Mas hoje! Hoje sou ser civilizado. Tenho internet, celular, carro importado... Não corro mais descalço atrás de pipas. Já não corro. Uso calçado importado. Europeu. Couro de jacaré do pantanal matogrossense. Cipós ? Coisa de bichos. Hoje tenho big-jump, rapel, cama-elástica... Já não me banho no riacho da vila que virou cidade. Nem pesco na lagoa do seu Thomás. Seu Thomás morreu. Morreu também o lago. Que importa? Tenho SPA!

Quantas lembranças... Mas, de que me valem? Eu era bicho montado em outro bicho cavalgando pelos cerrados e campinas. Tomava leite no mangueirão. Quentinho. Saído na hora. Espumoso e puro. Hoje? Hoje sou ser civilizado. Tomo leite de caixa. Homogeneizado. Quimicamente tratado. Noventa dias de validade. Compro num hiper-mercado comida de gente. Ração humana. Tudo lavado. Embalado. Tratado geneticamente. Goiabas sem bicho. Mangas, todas do mesmo tamanho. Cenouras, todas da mesma cor... Já não sinto o gosto. Mas gente não sente o gosto. Ou será que sente? Deixei de ser bicho para ser civilizado. Já não faço minhas necessidades na fossa cavada à força. Hoje tudo é encanado. Saneamento básico. Tudo caindo no riacho da vila que virou cidade. Que importa? Sou gente. Já não brinco mais de mocinho e bandido. Perdeu a graça. Hoje todos se matam. São gente.

Ri. Ri sem saber porquê. Já não tenho mais a bica nascendo no pé do morro. Hoje é água tratada. Clorificada. Fluorificada. Vem da lagoa do seu Thomás. Mas dizem que não faz mal porque é esgoto tratado.

Ri... Compreendi a quinze metros debaixo da terra que sou ser civilizado. Gente... A passos curtos e apertados. O ar angustiante e pesado. A pressa congestionada. O mugido surdo das vozes e da indiferença dos seres civilizados. Mas, que importa? Descobri enfim que sou gente junto a massa de gente ao passar por entre a cerca de alumínio e lembra-me dos bois voltando ao mangueirão e se acomodando entre as tábuas do curral. Gente amontoada. Comprimida. Espremida e falando num surdo mugido. Dizem que é pra melhorar o fluxo de passageiros. Segurança para a civilidade...

Ah... Sim. Virei gente! Deixei de ser bicho. Sou ser civilizado no curral subterrâneo da civilidade. Por isso, insensível à jovem pisoteada ao sair do trem; impassível ao senhor desmaiado por faltar-lhe ar; inexpressivo ao ver um povo morrendo de fome, humilhado, oprimido e escravizado.

Sou gente! E só bichos sabem que são um com a natureza. Só bichos lutam e defendem a sua espécie. Só bichos anseiam e lutam por sua liberdade.

Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 0906/2010

Início – Estação Metrô-Luz, manhã de segunda-feira – 06h10

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta à Donzela

Foto: Moses Adam - Poá, agosto 2009

Querida e amada Donzela,

Se és do agreste, a Cinderela,

És, a mim, doce poesia.

Eu, em teu colo, sou Rei;

Tu és, nos meus braços, Rainha.

És tu, mi’a nobre honraria,

Outra igual jamais terei.

Tu, quem comigo caminha.

Nunca serás nostalgia.


Ouve, em prece, a homilia,

Da capela, em Santo Antão.

Nela, eu faço as minhas preces,

Fortaleço o coração.


Na capela, em oração,

Eu ouvi a homilia.

Um santo monge a entregou

Falando em analogia.


O Salmo quarenta e seis,

Eu ouvi com atenção.

Falava de confiança:

Deus é a nossa proteção.


No Salmo cinqüenta e um,

O relato de Davi

Encheu-me os olhos de lágrimas.

Pecado assim, eu já vi.


Na capela, o silêncio.

No coração, um alívio.

Da impactante mensagem,

O que eu lembro, eu te envio:


“Outrora, eu fui digno vaso.

Dessa glória, eu não fiz caso:

Portar a divina imagem.

E sendo vaso, fui rei.

E foi esta a suma honra:

Ser de Deus, a sua imagem;

Que, por amar, degradei.

E da fama, a desonra;

E de Deus, só a miragem.


Do meu reino, eu fui tirado.

De outros vasos, separado,

E no chão, vi-me caído.

O vaso fez-se em bagaço.

No bagaço, nenhum viço;

E esse no pó, esquecido.


Jaz na terra, e és mais nada.

E no Caos, sua morada.

Eis o Fiat Divino!


Essa é de Deus, a Palavra:

- Surge, ó pó, desse nada.

Ó Terra, se tu, formada.


Nessa terra, eu moldo o barro,

Faço dele, a minha imagem.

Nesse vaso, a mi’a estalagem.

- Eu te adoro. Esse teu jarro,

Pelo amor inesgotável,

Irrestrito e inefável.


Em mim, a eterna honraria:

Ser de Deus a moradia.

Sou filho, não sou miragem.

Seja essa, a mi’a missão:

Depor, aos teus pés, os cacos.

Por tuas mãos, venha a moagem.

Misericordiosa mão,

Faz que os filhos, mesmos fracos,

Resplandeçam tua imagem.”


Foi essa, ó minha Donzela.

A tão divina mensagem.

O meu coração vibrou:

Em mim, e em ti, essa imagem.


E com muita gratidão,

Tomei nas mãos tua missiva.

Enquanto eu lia, chorei.

Ao longe, tua comitiva.


Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 2610/2008

Pirata dos Sete Mares

Foto: Moses Adam
Trilha - Praínha - Guarujá - Julho 2008


Sete homens – um só desejo!

Sete erros...

Sete amares...


Eram sete, os Navegantes

Desbravando os sete mares

Sete homens – um só desejo:

Conquistar os além-mares


Deixaram Porto Seguro

Sonhando Boa Viagem

E rumo ao desconhecido

Não temeram a voragem


O primeiro, Insaciável

Naufragou no Mar da Espanha

Pois aos outros seis queria

Contar sempre uma façanha

Que viu o sonho perder-se

Nos lábios de uma piranha


O segundo soçobrou

Ao chegar ao Mar da França

Pois as trevas e tormentas

Minaram sua esperança

E tudo o que conquistou

Não lhe veio à lembrança


O terceiro, só razão

No Mar Glacial congelou

Esqueceu-se da emoção

Do sonho que o motivou

A descobrir novas terras...

Nunca mais ele sonhou.


O quarto todo empolgado

Desfrutando as maravilhas

Esqueceu-se de cuidar-se

E não viu as armadilhas...

Naufragou nos arrecifes

Em meio ao Mar das Antilhas


Vencido o Mar Oceânico

O quinto nauta pensou

Ter visto a Ilha Formosa

Por isso ele descansou

E a sotavento o seu barco

Numa ilha naufragou


O sexto, foi mais ousado

Seis mares, atravessou

Conheceu o Mar das Índias

Belas escravas comprou

Da vida, fez um negócio

Foi assim que naufragou


Eram sete, os Navegantes

Desbravando os sete mares

Sete homens – um só desejo:

Conquistar os além-mares


Um sozinho regressou

Para a história vos contar

Conheceu dos sete, seis

Um ainda a desvendar

Pois no porto que partiu

Deixou nele o seu amar...


Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 3009/2009