Busco, em cada traço, escrever coisas que toquem a alma....


Entre e, se desejar, deixe o seu recado...


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terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Menina que usava piercing


Foto: retirada da net

Sempre mudar queria

Aquela estranha menina


Tanto piercing colocava

Tanto piercing ela usava

Que já no espelho nem se olhava


Nada a satisfazia...

Sempre mudar queria

E a cada dia, mais piercing se encontrava


Mas um dia, ao se olhar no espelho

Querendo ver a si mesmo

Descobriu que não mais existia...


Moses Adam,

Ferraz de Vasconcelos, 2203/2009



A Dona Barata

Foto: http://www.papatodeneneca.blogger.com.br/barata2a.jpg

Debaixo de um guarda-roupa

E num cantinho escondida

Dormia a dona barata

Já velha e muito abatida.


Sonhava os dias de glória

Quando bem jovem vivia

Subindo em cima das mesas

Buscando a sua comida:


Mel e migalhas de pão

Um pão de queijo e empadinha

Leite estragado e bolor

O resto de uma galinha.


Que festa! Que alegria!

Naquela casa sujinha

A baratinha correndo

Por toda aquela cozinha.


Mas um dia de repente

Algo estranho aconteceu

Pois entrando pela porta

Um objeto apareceu...


Roc! Roc! Schep! Schep!

Vai limpando em disparada

A sujeira da casinha

A vassoura encantada.


Mel e migalhas de pão

Um pão de queijo e empadinha

Leite estragado e bolor

O resto de uma galinha.


Tudo jogado no lixo

A casa toda limpinha

Com saúde não se brinca

Adeus! Dona baratinha.


Moses Ben Adam

Poá, Batuíra, 2705/2009



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Um poema...


Foto: http://maramarolhares.blogs.sapo.pt/31484.html

Um poema não tem cor...
Não tem cheiro...
Não tem sexo.

Um poema não tem normas...
Não tem rimas...
Não tem nexo.

Um poema é como flor...
Matutina...
Orvalhada.

Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 2505/2009

Eutanásia...

Foto: http://www.almacarioca.net/cremacao-de-um-dignatario-na-ndia-lu-dias/

Minha despedida em vida...


Quando eu morrer, eu quero ser cremado

Na chama viva de um amor profundo

Alçando voo, digo adeus pro mundo

E sobre as águas eu serei lançado...


Ao pôr do sol, o céu alaranjado

Torna mais belo o mar à luz da lua

Que vem dourada e a beiramar debrua

A despedir-se desse abandonado.


Às minhas filhas, meu amor eterno

Aos meus amigos, meu saudoso abraço

Abre-se o véu... E eu voo pelo espaço

Despido o corpo desse velho terno.


Dessa gaiola, onde estive em pranto

Quebram-se as grades... Alço voo e canto!


Moses ADAM

Ferraz de Vasconcelos, 2509/2009



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Dança das sombras...

Foto : http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/88/Johann_Heinrich_F%C3%BCssli_015.jpg


No peito, amarga dor

A mente em desvario

Imagens ofuscadas

O corpo em inebrio

Os olhos desfalecem...

O copo... está vazio.

...

...

Há de haver uma verdade

Nesses dias sem sentido

Quando a cada passo dado

Ruma-se ao desconhecido

E as pessoas se devoram

Neste mundo já falido?

...

...

A névoa que encobre

O leito sem o brilho

Do sol que resplandece

A verdade em vidrilho...

É o barco que se afunda

Da proa ao tombadilho.


Nos destroços agarrado

O corpo em hipotermia

Um suspiro, um alto brado.

Ele ri dessa ironia:

Entre sombras aparece

Uma deusa luzidia...


Sua mão, a ela estende

Será o fim do seu martírio?

Dos destroços se liberta

A vida o pior delírio.

Nessa dança, ele adormece...

Sobre o peito, um alvo lírio.


Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 2504/2009




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O triste canto de esperança...


Foto: http://www.produtosaguia.com.br/img/curio.jpg
O canto: http://www.youtube.com/watch?v=NsnpI2BewVw&feature=related

Como o escravo liberto que jubila
Como um rio que, morrendo, chega ao mar
O pássaro cantando na gaiola
Espera o seu momento de voar.

O canto, o triste canto de esperança
Aos olhos, dá vontade de chorar
E no peito uma dor, uma agonia
No pássaro que não pode voar.

O sol se despedindo no poente
A noite deixa fria em seu brilhar
É o seu último canto na gaiola
É hora. Já é hora de voar...

A porta da gaiola põe-se aberta
O morto canta livre em seu voar...

Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 2006/2009 – 20h25

Caatinga

Foto: http://www.flickr.com/photos/mozartsouto/3785139085/


Na caatinga, um irmão,
No sol nascente, a chorar:
- Aqui não há compaixão,
Aqui é só trabalhar.

No cantil, um gole d´água.
Junto ao corpo, o seu facão.
Nas mãos, a ferida sara;
Também sara o coração.

A mula vem carregada
Do sisal da plantação;
Traz, nos lombos, pela estrada
Também um naco de pão.

Em meio à dor, alegria.
Pois mais um filho nasceu.
Esperançar novo dia,
Ou sofrer ao lado teu.

Terra? Um pedaço de chão.
A força quase a minguar.
Mas, à noite no sertão,
Nova esperança, a chegar...

Na caatinga um irmão,
No sol poente a louvar:
Tenho de Deus o perdão,
E forças prá trabalhar.

Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 09 de julho de 2008

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Feitiço vivo é o amar...

Foto: http://jangadanantes.free.fr/foto/j02.htm (escurecida)

Contemplo o véu de Maria
Eu sinto o cheiro do mar
À luz de uma lamparina
O brilho do seu olhar

Nos olhos do ribeirinho
Nasce um desejo. É ousar
Sussurros no seu sorriso
Palavras soltas no ar
Longevo brilho da estrela
Sereia à luz do luar
O doce e puro desejo
Quais ondas a se quebrar

Eu beijo o véu de Maria
Gaivotas no quebramar
À luz mortiça da lua
Eu lanço as redes ao mar

Içando a vela eu me entrego
À força de um vagalhão
A minha jangada enfrenta
Borrasca, neve e tufão
A beiramar me esperando
O vento da viração
Aporto em águas profundas
Meu norte é o seu coração

Eu tiro o véu de Maria
Eu tiro os peixes do mar
O sol se pondo mais belo
No corpo que eu quero amar

Nas lindas praias do Norte
Luar à luz do sertão
O corpo dessa Morena
É o fruto da tentação
O véu na areia caído
Corpos jungidos no chão
É água de coco é o carinho
Fome, desejo e paixão

Contemplo o céu. Oh! Maria...
Mistérios nesse além-mar
À luz de uma lamparina
Feitiço vivo é o amar...

Moses ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 1809/2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os Dados do Destino

Montagem : Vânia Viana

Quarto Lugar no Concurso Almas Apaixonadas,
da comunidade Poemas à Flor da Pele.


Duas almas...

Um vaticínio...

E os jogadores


Veem os dados lançados ao destino

Da sorte que ao amor faz sua presa

Nas apostas fechadas junto à mesa

No mistério dos dados do cassino.


..........Duas almas...

..........E no destino

..........Os amores


Nessa linha de frente veem as almas

A renhirem o ponto conhecido -

Numa aposta de vir o que é querido,

Cobiçando o triunfo e as suas palmas.


..........Duas almas...

..........E do destino

..........Os senhores


Nesse espaço se lançam um contra o outro

Buscando cada qual tudo o que é doutro

No jogo, são escravos da libido.


Duas almas...

E os libertinos

perdedores


Veem os dados parando sobre a mesa...

Os lábios se emudecem co’a surpresa:

Quem joga com o amor só tem perdido.


Moses ADAM

Ferraz.Vasconcelos, alterado em 3006/2009

01h00


domingo, 6 de setembro de 2009

O Instante Eterno do Meu Dia


Hoje eu quero um sorriso de criança

Desses sorrisos largos, de esperança;

Hoje eu quero conversar com um amigo

Das conversas sem razão e sem sentido;

Hoje eu quero andar descalço sob a chuva,

Sem sapatos, sem meias ou guarda-chuva;


Hoje eu quero dormir e acordar cedo

Pra ver o sol nascer sobre um rochedo;

Hoje eu quero um amor que se irradia,

Um amor que só perdoa e não se ira...

Hoje eu quero...


E por que só hoje?

Porque o Hoje é o meu agora...

E o agora é o instante eterno do meu dia.


Já não choro o passado,

Nem me iludo com o porvir.

Minha vida é um Presente

E, Hoje, eu quero existir...


Moses ADAM

Ferraz de Vasconcelos, 2504/2009

Noite de Lua Cheia


É noite de Lua Cheia

Lobos estão a uivar.

Em meu corpo, é a magia.

Eu tremo só de pensar...


Ouço a ninfa solitária

Na floresta a cantar

O seu canto é uma ária

Sedutora a me chamar.


Tranco-me num quarto escuro,

Prendo os pés numa corrente,

Vendo os olhos e murmuro:

- Já estou quase demente.


Os meus dedos tremem-tremem.

O meu corpo se estupora,

Mordo os lábios, eles gemem,

No corpo, um desejo aflora.


Os meus vasos se dilatam

Os meus pelos se eriçam

Os meus olhos se esbugalham

Os meus lábios esganiçam


Já esqueço minha viola,

Coração bate mais forte,

Perco o rumo e o meu norte.

A paixão já me degola.


Espero a nuvem chegar

Toldar, da Lua, o brilho,

E fazer que esse andarilho,

Não tenha medo de amar.

...

....

Da Lua, o Brilho no céu

Faz os corações sonhar.

Mas o lobo solitário

Prefere se acorrentar.


Moses ADAM

Ferraz de Vasconcelos, Set.2008

Acrescido duas quadras em 25.04.2009



sábado, 5 de setembro de 2009

A Última Batalha: a Morte de Lampião

Foto: retirada na Internet

À Donzela apaixonada

À virgem Mandacaru!

Pela volante chamado
Eu voltei para o sertão
Para a última batalha
Contra o homem Lampião
E em meu peito um aperto,
Do meu povo ele é irmão...

Eu selei o meu cavalo
E me pus em direção
Foi a mais triste viagem
Nas entranhas do sertão
Em Sergipe está escondido
Virgulino, o Lampião.
...
Foi na fria madrugada
Do mês de julho – escolhido.
Vigésimo oitavo, o dia
Trinta e oito, o ano corrido.
Tombaria Lampião.
Como se tomba um bandido.
...
O coração apertado.
O céu pôs-se enegrecido.
A volante preparada
O traidor escolhido.
Um brado! O cheiro da Morte...
Quem me dera ter morrido.

Oh! horrores. Oh! fantasmas.
Oh! ódio sem compaixão.
São Francisco está manchado
É o sangue de Lampião
Se é herói, ou se é bandido,
Eu não sei... é meu irmão.

A ordem nos fora dada
Atravessamos o Chico
Como fantasmas andamos
Até a Grota do Angico
Suspense e transe de morte...
A volante qual milico.

Numa oração à Senhora
A devoção do bandido
Pedia por suas almas
Pela vida, agradecido.
Lembrei-me de Santo Antão
No coração um pedido.

Ó meu Deus! Valei-me a prece.
Eu te faço nesse chão:
Não permita Deus que eu morra
Nem que eu mate Lampião.
Na volante, eu sou macaco
Pra Lampião, eu sou irmão...
...
Um baque... O primeiro tiro.
Um grito. Um salto. O pavor...
Numa rajada maldita
No acampamento o terror
Cercados por todo lado:
A caça do predador.

O serviço estava feito
Sem nenhuma reação.
O coiteiro qual um Judas
Comendo da sua mão
Por trinta moedas de prata
Entregou a Lampião.

No frio da noite, a morte.
Do sangue, o cheiro no chão...
E brigam pelos despojos
As hienas do sertão.
A justiça prevarica
Roubando os bens da nação.

E nos corpos mutilados
A glória e a degradação..
É o ouro. É jóia. É o dinheiro
Essa maldita ambição:
Por um prato de lentilhas
Rouba os bens do seu irmão.

Caiu! Caiu Virgulino
Cangaceiro do sertão
As cabeças arrancadas:
O prêmio da legião
Os corpos abandonados
São esterco pra este chão.

Eu me prostro em uma prece
Mas me vejo emudecido
No Chico o cheiro da morte
São Francisco entristecido
As hienas digladiam
E o despojo é repartido.

Sobre o chão vejo um pedaço
De um papel vermelhecido
São pedaços de um poema
Eu o leio comovido.
É a voz de Lampião
O seu último pedido...
...
...

“Leitores sendo possível
Leiam com toda atenção
Este pequeno fascículo
Que vos dá explicação
Quem foi, quem é Virgulino
Pela alcunha de Lampeão.

Fui nascido em Pajeú
Por Lampeão apelidado
No município de Vila-Bela
No lugar denominado
Riacho de São Domingo
De Pernambuco no Estado.

Gado bravo para ele
Não estando mal montado
Sendo em cavalo bom
Julgava o bicho amarrado
Ou vinha pra o curral sadio
Ou com um quarto quebrado.

Até os 17 anos
Vivia calmo e sossegado
Até todos o conheciam
Por lutador honrado
E nessa idade os retrocessos
Fizeram-no mau e desgraçado.

Porém já sabem os leitores
Do mais antigo ditado
Que não se julgue feliz
O que vive em bom estado
Quem vem a naufragação
E acaba em mau resultado.
....
....
Se reuniram os três irmãos
Cada qual mais animado
Disse eu ao pai já velho
Bote a questão pra meu lado
E deixe estar que o meu rifle
É um bom advogado.
...
...
Eu bem que disse a meu pai
Desta vez acreditei
Que advogado bom é rifle
Que com ele deportei
Todos nossos inimigos
Agora sim descansei.
...
...
Seus nomes estão anotado
Suas casas já queimei
Não poupei nem mesmo o gado
Nesta luta me empenhei
Para a qual fui empurrado

Estou bem certo do meu fim
Que ele bom não pode ser
Mato João Pedro ou Matim
E onde vou comparecer?
Já fiz tudo que queria
Que me importa de morrer?
...
...
....
Por minha infelicidade
Entrei nessa triste vida
Não gosto nem de contar
A minha história sentida,
A desgraça enche o meu rosto
Em minha alma entra o desgosto
Meu peito é uma ferida.

Quando me lembro senhores
Do meu tempo de inocente
Que brincava nos serrados
Do meu sertão sorridente
Sinto que meu coração
Magoado desta paixão
Bate e chora amargamente.

Meu pai e minha mãe querida
Quiseram me ensinar
No seu colo carinhoso
E ela ensinou-se a rezar
E a todos muito respeitar
E ele ensinou-me nos campos
E eu menino a trabalhar.

Cresci na casa paterna
Quis ser um homem de bem
Viver de meus trabalhos
Sem ser pesado a ninguém
Fui almocreve na estrada
Fui até bom camarada
E tive amigos também.

Tive também meus amores
Cultivei minha paixão
Amei uma flor mimosa
Filha lá do meu sertão
Sonhei de gozar a vida
Bem junto a prenda querida
A quem dei meu coração

Hoje sei que sou bandido
Como todo o mundo diz
Porém já fui venturoso
Passei meu tempo feliz
Quando no colo materno
Gozei o carinho terno
De quem tanto bem eu quis.

Meu rifle atira cantando
Em compasso assustador
Faz gosto brigar comigo
Porque sou bom cantador
Enquanto o rifle trabalha
Minha voz longe se espalha
Zombando do próprio horror.

Nunca pensei que na vida
Fosse preciso brigar
Apesar de ter intrigas
Gostava de trabalhar
Mas hoje sou cangaceiro
Enfrentarei o balseiro
Até alguém me matar.

Quando pensei que podia
O caso estava sem jeito
Vou dar trabalho ao governo
Enfrentar agora de peito
E trocar bala sem receio
Morrendo num tiroteio
Sei que morro satisfeito.”

Virgulino Ferreira, o Lampião
........
.....
...

Nos sonhos de Virgulino
Não estava Lampião.
A injustiça no serrado
Quem gerou a esse Vilão
Mata-se o rei do Cangaço
Mas a lei ainda é um laço
Que corrói essa nação.

O Paladino
Grota de Angico, 28.7.38

...
.....


O sol amanheceu triste
Os pássaros não cantaram
No macabro acampamento
Hienas regozijavam
Sob o céu, que taciturno,
Onde abutres revoavam.

As hienas, carregadas
Dos despojos, banqueteiam.
Cospem e urinam nos corpos
As cabeças, as bandeiam;
E nessa festa macabra,
Tomando leite de cabra,
A vitória alardeiam.

Minha boca ainda cerrada
Eu me afasto em agonia
Os meus olhos marejados
Uma dor. Melancolia...
O sertão se põe vermelho
Os meus olhos são o espelho
Dessa estúpida sangria.

Os meus passos se dirigem
Para o rio abençoado.
Ó Senhor! Ó São Francisco!
O que eu fiz de tão errado?
Tão distante da Donzela
Eu me encontro nesta sela
Também sou mais um culpado.

O Paladino
Grota do Angico,
Às Margens do São Francisco, 28.7.38


Moses Adam
Ferraz deVasconcelos, 0706/2009

OBS: Entre " " (aspas) é um poema de Lampeão retirado no livro:
Lampeão, de Optato Gueiros, 1953.