Querida e amada Donzela,
Se és do agreste, a Cinderela,
És, a mim, doce poesia.
Eu, em teu colo, sou Rei;
Tu és, nos meus braços, Rainha.
És tu, mi’a nobre honraria,
Outra igual jamais terei.
Tu, quem comigo caminha.
Nunca serás nostalgia.
Ouve, em prece, a homilia,
Da capela, em Santo Antão.
Nela, eu faço as minhas preces,
Fortaleço o coração.
Na capela, em oração,
Eu ouvi a homilia.
Um santo monge a entregou
Falando em analogia.
O Salmo quarenta e seis,
Eu ouvi com atenção.
Falava de confiança:
Deus é a nossa proteção.
No Salmo cinqüenta e um,
O relato de Davi
Encheu-me os olhos de lágrimas.
Pecado assim, eu já vi.
Na capela, o silêncio.
No coração, um alívio.
Da impactante mensagem,
O que eu lembro, eu te envio:
“Outrora, eu fui digno vaso.
Dessa glória, eu não fiz caso:
Portar a divina imagem.
E sendo vaso, fui rei.
E foi esta a suma honra:
Ser de Deus, a sua imagem;
Que, por amar, degradei.
E da fama, a desonra;
E de Deus, só a miragem.
Do meu reino, eu fui tirado.
De outros vasos, separado,
E no chão, vi-me caído.
O vaso fez-se em bagaço.
No bagaço, nenhum viço;
E esse no pó, esquecido.
Jaz na terra, e és mais nada.
E no Caos, sua morada.
Eis o Fiat Divino!
Essa é de Deus, a Palavra:
- Surge, ó pó, desse nada.
Ó Terra, se tu, formada.
Nessa terra, eu moldo o barro,
Faço dele, a minha imagem.
Nesse vaso, a mi’a estalagem.
- Eu te adoro. Esse teu jarro,
Pelo amor inesgotável,
Irrestrito e inefável.
Em mim, a eterna honraria:
Ser de Deus a moradia.
Sou filho, não sou miragem.
Seja essa, a mi’a missão:
Depor, aos teus pés, os cacos.
Por tuas mãos, venha a moagem.
Misericordiosa mão,
Faz que os filhos, mesmos fracos,
Resplandeçam tua imagem.”
Foi essa, ó minha Donzela.
A tão divina mensagem.
O meu coração vibrou:
Em mim, e em ti, essa imagem.
E com muita gratidão,
Tomei nas mãos tua missiva.
Enquanto eu lia, chorei.
Ao longe, tua comitiva.
Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 2610/2008

