Foto: Moses AdamIgreja Presbiteriana de Leme - 2008
“É a Páscoa do Senhor...” Êxodo 12.11
O sol deitava-se por sobre a colina enquanto a brisa murmurava por sobre a copa do mangueiral.
O céu, vestido de púrpura, carmesim e de um linho entretecido ao azul celeste, trazia uma sensação de alegria, paz e solenidade... A família reunira-se na varanda.
Um coro de andorinhas e maritacas unia-se à alegria das vozes onde a ceia fora posta.
De repente, um ancião elevou as suas mãos e todos contemplaram um pão que, nas cálidas mãos, partia-se. Ao seu lado, uma criança maravilhada, lhe perguntou:
- Vovô, que rito é este?
O silêncio das vozes... e das aves que encontravam os seus ninhos.
- Há muitos séculos, um povo viveu escravizado por outro. Sofreram, escravos, em todo tipo de trabalho e serviço que faziam.
Choravam, gemiam e clamavam a cada dia, esperando libertação.
Então, Deus o ouviu, e disse:
“Vi a aflição do meu povo, e ouvi o seu clamor. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão daquele que o escraviza.”
E assim, foram libertos. Deus trouxe-lhes, justiça, paz e alegria.
Mas o povo que foi liberto, logo se esqueceu de Deus, e do que lhes fizera.
E se afastaram dele, e deixaram de praticar a justiça, de amar a misericórdia e de andar humildemente diante de Deus.
Tornaram-se semelhantes àqueles que os escravizaram...
Então, mais uma vez Deus ouviu a voz dos que choravam sob a escravidão, e disse: “Eis que farei nova aliança. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia que os livrei, pois eles a anularam. Esta é a aliança que firmarei:
Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece a Deus, porque todos me conhecerão, desde a criança até ao ancião. Perdoarei os seus erros e deles jamais me lembrarei.”
Então, num dia inesperado, o inesperado:
Deus se fez presente, em meio à humanidade numa criança que nasceu. De pais pobres, cresceu sem ser notada. Quando se revelou, ensinou-nos o que é o amor, o perdão, a prática da justiça, da misericórdia e o que é andar humildemente diante de Deus.
Mas os homens o rejeitaram.
Uns por não aceitarem que Deus possa fazer-se homem, servo e viver humildemente entre os homens; outros, porque ele desmascarara a hipocrisia da religião morta, sem Deus e que manipulava aos homens; e muitos, porque ele se recusava a realizar os seus sonhos pessoais.
Por fim, foi entregue à morte pelo poder do Estado, como se fosse um criminoso.
Porém, Deus estava nesse homem reconciliando consigo a humanidade, perdoando-nos dos nossos erros e, acima de todas as coisas, ensinando-nos que o seu amor é maior que todos os poderes do mundo, e que esse amor, transforma e liberta.
O seu amor revelou-se em seu sangue derramado para nos libertar de nós mesmos...
O ancião mergulhou o pão no cálice de vinho, e pronunciou:
- Na véspera de sua morte, ele nos ensinou:
“Isto é o meu corpo e isto é o meu sangue. Fazei isso em memória de mim...”
Então, entregou o pão molhado nas mãos da criança.
- Minha querida neta, nunca se esqueça, para que possa haver justiça, paz e alegria,
por vezes, o nosso sangue deverá ser derramado, pois o amor nunca se impõe,
apenas se dá...
e se recebe.
Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 0104/2010