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quarta-feira, 23 de maio de 2018

AMPULHETA DA VIDA

Na ampulheta a areia esvai-se:
Tempo, tempo, tempo, tempo...

Cada grão de tempo é areia
Sempre constante e sereno
Aos poucos vai escorrendo

Tempo e vidro, vidro e vida
Tempo vira grão de areia

Vida eterna vira vidro
No cair do grão de areia
Tem o tempo se esvaído

A vida é qual ampulheta
Que no vidro tem o seu brilho
Quebrando-se antes do tempo
De toda areia vertida.

Moses Adam
Poá, Batuira, 07.11.08 – 12h30

sexta-feira, 9 de março de 2018


Inundação -
Uma história de amor

Era uma vez uma ilha
Lá nos rincões do sertão
Onde os sentimentos todos
Bem antes da Criação
Moravam todos reunidos
Antes de serem partidos
Por uma naufragação.

Lá a Alegria e a Tristeza
Eram uma coisa só
Havia tanta união:
Água, fogo, vento e pó
Que em cada sentimento
Era tal o inteiramento
Qual as bandas de um jiló.

E, por fim, também o Amor
Morava naquela ilha
E todos que lá estavam
Diziam: - Que maravilha!
Até que chegou o dia
Daquela dura partilha.

- A ilha vai afundar...
Foi assim que lhes falaram
- A ilha vai afundar...
Então todos se apressaram
E havia um só pensamento
Fugir daquele tormento
E em suas barcas adentraram.

E todos os sentimentos
Nos barcos iam partindo
E onde existia uma ilha
Só água ia surgindo
E era um total rebuliço
Por causa do embarcadiço
Pois todos iam fugindo.

Mas... o Amor permaneceu
Querendo ainda ficar
Até o último momento
Antes da ilha afundar
E foi assim que ele fez
Tão grande era o seu amar

Foi quando caindo em si
Viu que estava a se afogar
E como não tinha um barco
Pôs-se bem alto a chamar
Nisso passou a Riqueza
E o Amor foi lhe falar:

- Riqueza me dê socorro
Eu estou a me afogar!
E a Riqueza respondeu:
- Como hei de te ajudar?
Em meu barco o meu tesouro
Muita prata e muito ouro
Não há para ti lugar.

Nisso passou a Vaidade
E o Amor foi lhe falar:
- Vaidade me dê socorro
Eu estou a me afogar!
E a Vaidade tão vaidosa
Respondeu em verborosa
- Como hei de te ajudar?

Você está todo molhado
E o meu barco é todo novo
E sujeira aqui não entra
E se aparece eu removo
Procure um outro barco
Pois nesse só eu embarco
O teu pedido eu demovo.

E o Amor viu a Tristeza
Sozinha em seu navegar
- Tristeza me dê socorro
Eu estou a me afogar!
E a Tristeza respondeu
Do seu grande coliseu:
- Sozinha eu quero ficar.

Também passou a Alegria
Tão alegre em seu cantar
Tanto barulho fazia
Nada podia escutar
E nem sequer percebeu
Por causa do jubileu
O Amor, ali a chamar

E embora tão persistente
Incansável é o amar
A ilha toda submersa
O Amor se pôs a chorar
Foi quando naquele instante
Uma voz tão retumbante
Ao Amor, pôs-se a chamar

Era uma voz muito velha
Daquele que o socorreu
E por estar tão feliz
O Amor até se esqueceu
De lhe perguntar o nome
E nem mesmo o seu cognome
O Amor sequer conheceu.

Ao chegar do outro lado
Da margem, ele perguntou:
- Amiga Sabedoria
Diga-me, quem me salvou?
E sem nenhum contratempo
Ao Amor, ela falou:

- Quem te salvou foi o Tempo!
Disse e sorriu para o Amor
- Por que só o Tempo me trouxe?
Na voz, um grande dulçor
- Porque só o Tempo é capaz
Ajuda e é eficaz
Prá entender tão grande Amor.

Releitura de uma pequenina história
Retirada do programa Sathya Sai Educare –
Educando com valores Humanos

Moses ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 1509/2009

sábado, 9 de dezembro de 2017

[A Câmara e o Senado]

Ouvi perverso escritor
Do sertão do meu nordeste
Falando de Lampião
Como se fosse uma peste.
O seu nome é Oleron
Que nunca comprou da Avon
Um perfume que se preste.

Fala o homem mulambento
Que já foi, e vá bem ido:
“De tantos maus elementos
A que temos conhecido
É vergonha e humilhação
Para o solo da nação
Lampião, esse Bandido.

Criatura inferior
Pior que tigre e a pantera..."
E continua o escritor
Pois na folha vocifera.
Porém, esse homem nefando
Por não ser parte do bando,
A Lampião, vitupera.

Mas não consegue esconder
Mesmo fazendo descarte
Do bando de Lampião
E por isso diz com arte
Aquilo que é já sabido:
“Lampião, raro bandido”
Do meu povo, é o estandarte.

Quem julgará Lampião,
Se foi herói ou bandido?
Do poder dos coronéis
Defendia o oprimido
Que vivia sobre a terra
Sofrendo qual numa guerra
Sem nunca a ter conhecido.

E no registro da história
Há muito o que se aprender
Os pobres, sempre o louvaram;
Os coronéis, o prender.
Pois são esses os bandidos
Mas pela lei protegidos,
Que ao povo, fazem sofrer.

Hoje ainda há coronéis
Iguais houve no passado
Tirando o pão do meu povo
Andam de carro importado
Inocentam ao ladrão
Viajam só de avião...
Bando de cabra safado.

Espalhados e infiltrados
Os coronéis do passado
Vivem hoje da política
Na Câmara e no Senado
Prevaricam descarados
Junto a um bando de tarados...
Foro privilegiado!!!

Mas há um Deus a ouvir
Como escutou no passado
O gemido do seu povo
Sendo oprimido e humilhado
Pelas mãos de Faraó
Gemiam que dava dó
Mas, por fim, foi libertado.

No Egito foi Moisés...
No sertão foi Lampião...
O passado tão presente
No deserto do sertão
Deus há de ouvir o gemido
Desse povo tão sofrido
E salvar esta Nação.

Moses
 Bem ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 2208/2009

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Anoiteceu! O sino gemeu.

"Anoiteceu,
O sino gemeu...”

Sobre um pai, na sarjeta, embriagado
Nos lábios e na veia de um drogado
Num bordel entre amantes abrasados
Num morro sobre um homem baleado.

Na igreja, um salmo de invocação!

Anoiteceu,
O sino gemeu...

Como geme a família abandonada
Como geme outra mãe desconsolada
Como gemem, nos leitos, à espera...
Como os amantes gemem num bordel.

Na igreja, uma oração se eleva ao céu...

Anoiteceu,
O sino gemeu...

A família de um ébrio se desfaz
O filho de overdose morre em paz
Os amantes se deixam solitários
E morre, sobre a maca, o baleado.

E na igreja outro canto de louvor...

Anoiteceu,
O sino gemeu...

E o mundo continua em seu pecado
E o homem permanece encarcerado
E santos, no seu culto, alienados
E os anjos e os demônios admirados!

E com um credo, o culto é terminado.

Amanheceu! O sino gemeu...
E nenhum santo se comprometeu
A sair pela cidade,
Pelas ruas e bordéis,
Prostíbulos e hospitais,
Prisões, morros e sarjetas,
E levar uma palavra
De esperança e salvação
Àqueles por quem Cristo morreu.

"Busquei entre eles um homem que tapasse o muro
e se colocasse na brecha perante mim,
a favor desta terra,
para que eu não a destruísse;
mas a ninguém achei."
Ezequiel 22.30

Moses Adam
Expresso Leste, in. 0412/2009
Poá, Batuíra, corpo, 1512/2009
Ferraz de Vasconcelos, tr. 2312/2009

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

SOU CRISTÃO

Por que eu sou cristão?
Essa é uma pergunta que eu me faço todos os dias.
E quanto mais eu vivo, mais percebo que não é pelo desejo de ir ao “céu,
Nem mesmo pelo temor de ser lançado no “inferno”.

Então, por que ser cristão?
Não é porque vou fazer o bem para ser abençoado;
Nem mesmo porque devo evitar o pecado para não ser amaldiçoado;
Não quero ser cristão por barganha ou por medo.

Mas, por que ser cristão?
Sou cristão não para ser bem quisto pelas instituições religiosas;
Nem porque hoje virou moda ser “cristão”;
Sou cristão não porque é interessante crer-se em alguma coisa
A não se crer em coisa nenhuma.

Para mim, ser cristão é ouvir dia a dia o chamado:
“Se alguém quer vir após mim...”. Sim, é ouvir esse chamado e lançar-se a caminho...
Um caminho de negação de si mesmo; não do meu eu, mas das ilusões humanas:
Ilusões de poder, de prazer, de dinheiro, de reconhecimento, de fama, de “status”, de glória...

Ser cristão é viver plenamente a existência, a minha existência.
É ter consciência do sofrimento e da morte, pois ser cristão é assumir a cruz, a minha cruz:
“...Dia a dia tome a sua cruz...”
Ser cristão é entender que essa vida acaba; e que nem sempre o justo é recompensado
E o ímpio nela é punido.

Ser cristão é seguir o Cristo: “...Siga-me.”
Sim, é segui-lo e comungar com ele, pelas ruas, vales, estradas, praças, bordéis, montes, casas, “sinagogas”...
É dormir ao relento e ser taxado de louco;
É ser incompreendido, rejeitado, humilhado...
É desprezar as ilusões humanas e rir-se delas.
É ser desprezado por muitos dos chamados cristãos:
E também não foi o Cristo?

Sim, pois para mim, ser cristão
É andar com Cristo, comungar com ele
E semelhante a ele, consumar a obra que o Pai me confiou fazer.

Sou cristão, pois ser cristão é um ato de fé na pessoa de Deus
É crer na loucura da pregação e entender que no Crucificado
Deus está reconciliando consigo o mundo.


Moses Adam, 0812/2013

quarta-feira, 4 de abril de 2012



No teatro da vida, eis um Palhaço
Sorrindo da ironia do destino;
Pois o mundo, esse circo adulterino
É a lona desse palco e o seu vil laço.

E a multidão a rir enlouquecida -
Tomando por real tudo o que é falso,
Se esquece: tem os pés no cadafalso;
E segue, pela vida, entorpecida.

E sob a lona, o riso desse Oráculo
Revela quão terrível o espetáculo
Àqueles que a esse mundo se entregaram:

Num ínfimo momento de vã glória
Seu ídolo, poder e sua história,
Em pó, sobre essa terra, se tornaram.

Moses ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 0509/2009

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ri!


Foto: Moses Adam & Aglaure - Abril 2011

Ri, de teu choro, a lágrima vertida;
Da noite escura, a solidão cruel;
De cada encontro, a dor da despedida;
Do beijo doce, o amor tornado em fel.

Ri, dos amigos, fiel falsidade
À tua mesa em santa comunhão;
Do leito sacro, a vil promiscuidade;
Dos falsos votos de uma vã união.

Ri! Por que choras leite derramado,
Se águas passadas não movem moinho?
Tu deste amor e foste abandonado?
Descarte o velho. Tome o novo vinho!

Moses Adam
SP, 1001/2012

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O TEU SILÊNCIO



O cavalete. O cavalo... e a tela...
E da tua presença,
As lembranças...

O pincel de marta perdendo-se na paleta
À procura de uma cor,
Sem nunca encontrá-la.

A tela, revestida de um branco pálido -
Branco Titânio,
Continua nua...

A espátula. O óleo de papoula.
As cores vivas, frias.
As cores mortas. O corpo...

O vermelho...
O vermelho vivo do teu rosto -
O cádmio vermelho coagula...

As cores terra se empalidecem...
E no entorpecente cheiro da terebintina
A última lembrança da tua face.

E o ébano...

Nas mãos,
Nas minhas mãos,
Do lápis carvão, as cinzas...

E no vazio...
No silencioso vazio da minha alma
Eu pinto o teu silêncio.

Moses Adam
FVasconcelos, 1906/2009

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

uMÁ CRÔnica

Hoje, eu ri ao compreender que sou ser civilizado. Ser civilizado, sim! E a quinze metros debaixo da terra, junto a outros seres. Gente espremida e se espremendo, comprimida e apressada a passos lentos.

Ri, ao lembrar-me com certa nostalgia de quando eu era bicho e, junto a outros bichos, andava livre pelos pastos tomando água na bica. A testa suada. O corpo suado. A garganta seca. E, a água borbulhando do solo: límpida, pura e cristalina. Debruçava-me com quatro patas. A boca dentro dágua sorvendo aquele líquido frio e cristalino. O corpo refrigerado.

Mas hoje! Hoje sou ser civilizado lembrando-me das corridas pelos campos e do estômago pedindo-me comida. A casca arrancada aos dentes. A polpa doce escorrendo pelos cantos da boca. Bons tempos de bicho, aqueles. Pés de goiaba. Goiaba vermelha. Cheirosa. Das boas... As bananas na bananeira. Pés de Ponkan, laranja-lima, baiana, pêra... E as pereiras. Quantos frutos. E eu, um bicho correndo entre outros bichos atrás de uma bola. Pique-esconde. Salva-latas. Mãe-da-rua. Pula-cela. Mocinhos e bandidos perdendo-se pelas entranhas das matas. Tantos tiros, e ninguém morrendo. Bicho não sente ódio. Ou será que sente? Ainda existia cipós, vagalumes, sapos-boi, pererecas, lacraias... Quantos risos e quantos bichos...

Mas hoje! Hoje sou ser civilizado. Tenho internet, celular, carro importado... Não corro mais descalço atrás de pipas. Já não corro. Uso calçado importado. Europeu. Couro de jacaré do pantanal matogrossense. Cipós ? Coisa de bichos. Hoje tenho big-jump, rapel, cama-elástica... Já não me banho no riacho da vila que virou cidade. Nem pesco na lagoa do seu Thomás. Seu Thomás morreu. Morreu também o lago. Que importa? Tenho SPA!

Quantas lembranças... Mas, de que me valem? Eu era bicho montado em outro bicho cavalgando pelos cerrados e campinas. Tomava leite no mangueirão. Quentinho. Saído na hora. Espumoso e puro. Hoje? Hoje sou ser civilizado. Tomo leite de caixa. Homogeneizado. Quimicamente tratado. Noventa dias de validade. Compro num hiper-mercado comida de gente. Ração humana. Tudo lavado. Embalado. Tratado geneticamente. Goiabas sem bicho. Mangas, todas do mesmo tamanho. Cenouras, todas da mesma cor... Já não sinto o gosto. Mas gente não sente o gosto. Ou será que sente? Deixei de ser bicho para ser civilizado. Já não faço minhas necessidades na fossa cavada à força. Hoje tudo é encanado. Saneamento básico. Tudo caindo no riacho da vila que virou cidade. Que importa? Sou gente. Já não brinco mais de mocinho e bandido. Perdeu a graça. Hoje todos se matam. São gente.

Ri. Ri sem saber porquê. Já não tenho mais a bica nascendo no pé do morro. Hoje é água tratada. Clorificada. Fluorificada. Vem da lagoa do seu Thomás. Mas dizem que não faz mal porque é esgoto tratado.

Ri... Compreendi a quinze metros debaixo da terra que sou ser civilizado. Gente... A passos curtos e apertados. O ar angustiante e pesado. A pressa congestionada. O mugido surdo das vozes e da indiferença dos seres civilizados. Mas, que importa? Descobri enfim que sou gente junto a massa de gente ao passar por entre a cerca de alumínio e lembra-me dos bois voltando ao mangueirão e se acomodando entre as tábuas do curral. Gente amontoada. Comprimida. Espremida e falando num surdo mugido. Dizem que é pra melhorar o fluxo de passageiros. Segurança para a civilidade...

Ah... Sim. Virei gente! Deixei de ser bicho. Sou ser civilizado no curral subterrâneo da civilidade. Por isso, insensível à jovem pisoteada ao sair do trem; impassível ao senhor desmaiado por faltar-lhe ar; inexpressivo ao ver um povo morrendo de fome, humilhado, oprimido e escravizado.

Sou gente! E só bichos sabem que são um com a natureza. Só bichos lutam e defendem a sua espécie. Só bichos anseiam e lutam por sua liberdade.

Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 0906/2010

Início – Estação Metrô-Luz, manhã de segunda-feira – 06h10