Fragmentos de um Peregrino...
Moses Adam
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quarta-feira, 23 de maio de 2018
sexta-feira, 9 de março de 2018
sábado, 9 de dezembro de 2017
Do sertão do meu nordeste
Falando de Lampião
Como se fosse uma peste.
O seu nome é Oleron
Que nunca comprou da Avon
Um perfume que se preste.
Fala o homem mulambento
Que já foi, e vá bem ido:
“De tantos maus elementos
A que temos conhecido
É vergonha e humilhação
Para o solo da nação
Lampião, esse Bandido.
Criatura inferior
Pior que tigre e a pantera..."
E continua o escritor
Pois na folha vocifera.
Porém, esse homem nefando
Por não ser parte do bando,
A Lampião, vitupera.
Mas não consegue esconder
Mesmo fazendo descarte
Do bando de Lampião
E por isso diz com arte
Aquilo que é já sabido:
“Lampião, raro bandido”
Do meu povo, é o estandarte.
Quem julgará Lampião,
Se foi herói ou bandido?
Do poder dos coronéis
Defendia o oprimido
Que vivia sobre a terra
Sofrendo qual numa guerra
Sem nunca a ter conhecido.
E no registro da história
Há muito o que se aprender
Os pobres, sempre o louvaram;
Os coronéis, o prender.
Pois são esses os bandidos
Mas pela lei protegidos,
Que ao povo, fazem sofrer.
Hoje ainda há coronéis
Iguais houve no passado
Tirando o pão do meu povo
Andam de carro importado
Inocentam ao ladrão
Viajam só de avião...
Bando de cabra safado.
Espalhados e infiltrados
Os coronéis do passado
Vivem hoje da política
Na Câmara e no Senado
Prevaricam descarados
Junto a um bando de tarados...
Foro privilegiado!!!
Mas há um Deus a ouvir
Como escutou no passado
O gemido do seu povo
Sendo oprimido e humilhado
Pelas mãos de Faraó
Gemiam que dava dó
Mas, por fim, foi libertado.
No Egito foi Moisés...
No sertão foi Lampião...
O passado tão presente
No deserto do sertão
Deus há de ouvir o gemido
Desse povo tão sofrido
E salvar esta Nação.
Moses Bem ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 2208/2009
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Anoiteceu! O sino gemeu.
O sino gemeu...”
Sobre um pai, na sarjeta, embriagado
Nos lábios e na veia de um drogado
Num bordel entre amantes abrasados
Num morro sobre um homem baleado.
Na igreja, um salmo de invocação!
Anoiteceu,
O sino gemeu...
Como geme a família abandonada
Como geme outra mãe desconsolada
Como gemem, nos leitos, à espera...
Como os amantes gemem num bordel.
Na igreja, uma oração se eleva ao céu...
Anoiteceu,
O sino gemeu...
A família de um ébrio se desfaz
O filho de overdose morre em paz
Os amantes se deixam solitários
E morre, sobre a maca, o baleado.
E na igreja outro canto de louvor...
Anoiteceu,
O sino gemeu...
E o mundo continua em seu pecado
E o homem permanece encarcerado
E santos, no seu culto, alienados
E os anjos e os demônios admirados!
E com um credo, o culto é terminado.
Amanheceu! O sino gemeu...
E nenhum santo se comprometeu
A sair pela cidade,
Pelas ruas e bordéis,
Prostíbulos e hospitais,
Prisões, morros e sarjetas,
E levar uma palavra
De esperança e salvação
Àqueles por quem Cristo morreu.
"Busquei entre eles um homem que tapasse o muro
e se colocasse na brecha perante mim,
a favor desta terra,
para que eu não a destruísse;
mas a ninguém achei."
Ezequiel 22.30
Moses Adam
Expresso Leste, in. 0412/2009
Poá, Batuíra, corpo, 1512/2009
Ferraz de Vasconcelos, tr. 2312/2009
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de abril de 2012
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Ri!
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
O TEU SILÊNCIO
E da tua presença,
As lembranças...
O pincel de marta perdendo-se na paleta
À procura de uma cor,
Sem nunca encontrá-la.
A tela, revestida de um branco pálido -
Branco Titânio,
Continua nua...
A espátula. O óleo de papoula.
As cores vivas, frias.
As cores mortas. O corpo...
O vermelho...
O vermelho vivo do teu rosto -
O cádmio vermelho coagula...
As cores terra se empalidecem...
E no entorpecente cheiro da terebintina
A última lembrança da tua face.
E o ébano...
Nas mãos,
Nas minhas mãos,
Do lápis carvão, as cinzas...
E no vazio...
No silencioso vazio da minha alma
Eu pinto o teu silêncio.
Moses Adam
FVasconcelos, 1906/2009
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
uMÁ CRÔnica
Hoje, eu ri ao compreender que sou ser civilizado. Ser civilizado, sim! E a quinze metros debaixo da terra, junto a outros seres. Gente espremida e se espremendo, comprimida e apressada a passos lentos.
Ri, ao lembrar-me com certa nostalgia de quando eu era bicho e, junto a outros bichos, andava livre pelos pastos tomando água na bica. A testa suada. O corpo suado. A garganta seca. E, a água borbulhando do solo: límpida, pura e cristalina. Debruçava-me com quatro patas. A boca dentro dágua sorvendo aquele líquido frio e cristalino. O corpo refrigerado.
Mas hoje! Hoje sou ser civilizado lembrando-me das corridas pelos campos e do estômago pedindo-me comida. A casca arrancada aos dentes. A polpa doce escorrendo pelos cantos da boca. Bons tempos de bicho, aqueles. Pés de goiaba. Goiaba vermelha. Cheirosa. Das boas... As bananas na bananeira. Pés de Ponkan, laranja-lima, baiana, pêra... E as pereiras. Quantos frutos. E eu, um bicho correndo entre outros bichos atrás de uma bola. Pique-esconde. Salva-latas. Mãe-da-rua. Pula-cela. Mocinhos e bandidos perdendo-se pelas entranhas das matas. Tantos tiros, e ninguém morrendo. Bicho não sente ódio. Ou será que sente? Ainda existia cipós, vagalumes, sapos-boi, pererecas, lacraias... Quantos risos e quantos bichos...
Mas hoje! Hoje sou ser civilizado. Tenho internet, celular, carro importado... Não corro mais descalço atrás de pipas. Já não corro. Uso calçado importado. Europeu. Couro de jacaré do pantanal matogrossense. Cipós ? Coisa de bichos. Hoje tenho big-jump, rapel, cama-elástica... Já não me banho no riacho da vila que virou cidade. Nem pesco na lagoa do seu Thomás. Seu Thomás morreu. Morreu também o lago. Que importa? Tenho SPA!
Quantas lembranças... Mas, de que me valem? Eu era bicho montado em outro bicho cavalgando pelos cerrados e campinas. Tomava leite no mangueirão. Quentinho. Saído na hora. Espumoso e puro. Hoje? Hoje sou ser civilizado. Tomo leite de caixa. Homogeneizado. Quimicamente tratado. Noventa dias de validade. Compro num hiper-mercado comida de gente. Ração humana. Tudo lavado. Embalado. Tratado geneticamente. Goiabas sem bicho. Mangas, todas do mesmo tamanho. Cenouras, todas da mesma cor... Já não sinto o gosto. Mas gente não sente o gosto. Ou será que sente? Deixei de ser bicho para ser civilizado. Já não faço minhas necessidades na fossa cavada à força. Hoje tudo é encanado. Saneamento básico. Tudo caindo no riacho da vila que virou cidade. Que importa? Sou gente. Já não brinco mais de mocinho e bandido. Perdeu a graça. Hoje todos se matam. São gente.
Ri. Ri sem saber porquê. Já não tenho mais a bica nascendo no pé do morro. Hoje é água tratada. Clorificada. Fluorificada. Vem da lagoa do seu Thomás. Mas dizem que não faz mal porque é esgoto tratado.
Ri... Compreendi a quinze metros debaixo da terra que sou ser civilizado. Gente... A passos curtos e apertados. O ar angustiante e pesado. A pressa congestionada. O mugido surdo das vozes e da indiferença dos seres civilizados. Mas, que importa? Descobri enfim que sou gente junto a massa de gente ao passar por entre a cerca de alumínio e lembra-me dos bois voltando ao mangueirão e se acomodando entre as tábuas do curral. Gente amontoada. Comprimida. Espremida e falando num surdo mugido. Dizem que é pra melhorar o fluxo de passageiros. Segurança para a civilidade...
Ah... Sim. Virei gente! Deixei de ser bicho. Sou ser civilizado no curral subterrâneo da civilidade. Por isso, insensível à jovem pisoteada ao sair do trem; impassível ao senhor desmaiado por faltar-lhe ar; inexpressivo ao ver um povo morrendo de fome, humilhado, oprimido e escravizado.
Sou gente! E só bichos sabem que são um com a natureza. Só bichos lutam e defendem a sua espécie. Só bichos anseiam e lutam por sua liberdade.
Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 0906/2010
Início – Estação Metrô-Luz, manhã de segunda-feira – 06h10
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