
Ar seco. Arrastado. Trinta por cento de umidade.
Sentei-me cansado e com o corpo desgastado
e doído após um dia inteiro de trabalho escravo.
Pensei fechar os olhos. Mas aquela mulher...
Aquela mulher colocou-se em pé bem na minha frente
junto a tantos outros, indiferentes e também cansados.
Fechei os olhos, o sono. Havia levantado antes de cantar o galo.
Mas ela estava ali... Bolsa, sacolas, olhar indiferente e cansado.
E eu com isso? Olhei para ela. O que me obrigava a levantar-me?
Nada. Hoje é cada um por si. Porém creio que não passou mais
que míseros milésimos de segundos. Olhei para ela, cansada
e com o olhar indiferente, olhando para si mesmo.
Mas meus pais me educaram.
Levantei-me com minha sacola e indiquei-lhe o assento.
Sentou-se. Nenhum muito obrigado. Nenhum sorriso de gratidão.
Colocou a sua sacola entre as pernas. A bolsa no colo. Abriu-a.
Pegou o celular. Mensagens?...
Este, o último apetrecho do homem civilizado.
Guardou-o novamente. Pegou o espelho, a maquiagem.
Retocou-se indiferente. Arrumou os óculos sobre os cabelos.
Eu... Eu segurava a minha sacola olhando a tudo, e pensativo.
O que os pais ensinam hoje aos seus filhos?
O que as escolas e universidades ensinam aos alunos?
Talvez tudo. Menos o que realmente importa: serem humanos!
Diplomas, mas nenhuma humanidade. Formação, mas nenhuma educação.
Formam-se robôs. Homens mutilados de sua humanidade.
Cada um por si... Isso é civilidade!
Mais raros são os pais que educam. Hoje apenas criam, ou melhor, geram.
Terceirizam a educação e a criação dos seus filhos.
Creches, baby sisters, hotéis infantis.
Olhei a indiferença da civilização
e segurei mais firme a minha sacola respirando
o pouco que me restou da minha própria humanidade.
Moses Adam
São Paulo, Metrô – Linha Azul 1706/2010

