Busco, em cada traço, escrever coisas que toquem a alma....


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terça-feira, 29 de junho de 2010

Ainda sou humano...


Ar seco. Arrastado. Trinta por cento de umidade.
Sentei-me cansado e com o corpo desgastado
e doído após um dia inteiro de trabalho escravo.
Pensei fechar os olhos. Mas aquela mulher...
Aquela mulher colocou-se em pé bem na minha frente
junto a tantos outros, indiferentes e também cansados.
Fechei os olhos, o sono. Havia levantado antes de cantar o galo.
Mas ela estava ali... Bolsa, sacolas, olhar indiferente e cansado.
E eu com isso? Olhei para ela. O que me obrigava a levantar-me?
Nada. Hoje é cada um por si. Porém creio que não passou mais
que míseros milésimos de segundos. Olhei para ela, cansada
e com o olhar indiferente, olhando para si mesmo.
Mas meus pais me educaram.
Levantei-me com minha sacola e indiquei-lhe o assento.
Sentou-se. Nenhum muito obrigado. Nenhum sorriso de gratidão.
Colocou a sua sacola entre as pernas. A bolsa no colo. Abriu-a.
Pegou o celular. Mensagens?...
Este, o último apetrecho do homem civilizado.
Guardou-o novamente. Pegou o espelho, a maquiagem.
Retocou-se indiferente. Arrumou os óculos sobre os cabelos.
Eu... Eu segurava a minha sacola olhando a tudo, e pensativo.
O que os pais ensinam hoje aos seus filhos?
O que as escolas e universidades ensinam aos alunos?
Talvez tudo. Menos o que realmente importa: serem humanos!
Diplomas, mas nenhuma humanidade. Formação, mas nenhuma educação.
Formam-se robôs. Homens mutilados de sua humanidade.
Cada um por si... Isso é civilidade!
Mais raros são os pais que educam. Hoje apenas criam, ou melhor, geram.
Terceirizam a educação e a criação dos seus filhos.
Creches, baby sisters, hotéis infantis.
Olhei a indiferença da civilização
e segurei mais firme a minha sacola respirando
o pouco que me restou da minha própria humanidade.


Moses Adam
São Paulo, Metrô – Linha Azul 1706/2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Antes que seja tarde...

Hoje, o telefonema!

E os meus olhos marejaram...

Prendi os lábios

E engoli o meu surdo soluço.

Tantas lembranças... Tantas

Na retina dos meus olhos.


O lançar-nos sobre a cama

Com suas pernas... O salto!

A cama quebrada, tantas vezes...

E tantas vezes, a mesma brincadeira,

As gargalhadas... a nossa folia!


A incansável alegria de nos ver brincando...

De nos contar histórias...

De nos tomar em seu colo

E nos acordar e nos fazer dormir...


A infinita paciência

E o chinelo...

As caras emburradas.

Mas, crescemos de mãos dadas...


Ah!..

Os mágicos cafés da manhã:

As frutas sobre a mesa, o suco de laranja,

Pão, queijo, ovos mexidos com bacon,

Bolachas, leite, chocolate... bombons!


E crescemos!

A escola, os amigos...

O ensinar-nos o que não sabíamos

E o aprender conosco

E os dedos se soltando...


Praia, campo, parques, passeios,

Restaurantes...

Mas sempre o seu amor, o seu carinho

E o seu extremo cuidado.


Mas tão rapidamente crescemos

E os dedos se soltaram!


E são novos os caminhos.

E queremos sempre o novo.

E rapidamente nos esquecemos

Do que era antes... e do que valia.


E quando aprendemos,

Percebemos que o tempo passou

E que não acordamos antes que seja tarde.


Moses Adam

Ferraz de Vasconcelos, 2602/2010



sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pingo d'água

Foto:

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Alma vazia

Cisterna vazia

E a réstia de carne seca...


Alma vazia

Barriga vazia

É a terra morta. É a seca.


Oh, meu Deus! Que terra é essa?

Que restou do ribeirão?

O seu leito em rachaduras

Do meu gado, o seu caixão


A capela abandonada

Nem um anjo ou sacristão

Prá trazer uma mensagem

De esperança e salvação


O cerrado agora é cinzas

Foi perdida a plantação

As sementes que sobraram

Eu guardei no meu gibão


Os meus filhos pedem água

De saliva, eu encho a mão

E aos pequenos animais

Dou um gole desse chão.


Este azul que é esperança

Ressecou minha visão

Quero o céu toldado em cinza

Quero raios e trovão...


Oh, meu Deus! Que terra é essa?

Vê, dos corpos, o estupor

Dominando as nossas almas

Com morte, secura e dor


São ossos abandonados

Espalhados pelo chão

A visão de Ezequiel

Refletida no sertão


É o teu povo de Israel

Vivendo na escravidão

Pela lei, os condenados

A viver em sequidão


Mas sou filho da promessa

Que fizeste a Abraão

Um hebreu em terra estranha

Suspirando por Sião...


A semente e a dura terra

O teu povo e o enxadão

Aguardam um pingo d'água

Trazer vida ao teu sertão.


Moses Adam

Batuíra, Poá, 1106/2010