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quinta-feira, 25 de março de 2010

Ocaso

Foto:

http://portugues.torange.biz/category/People/children/2866.html


Num punhado de areia, quantos sonhos!...
Surge um monte, uma casa... ou um castelo;

De um risco, nasce um rio e um sol tão belo,
Em meio a três gatinhos tão risonhos.


E dos dedos, a areia vai caindo

Escorrendo esse tempo não sentido

Por quem brincando vê um colorido

Nos flocos que são neve. E tudo é lindo...

O tempo escorre... e a areia foi levada.
Foi-se os sonhos da infância... e o seu mistério.

Surge uma cruz... da casa, um cemitério

Pra quem agora finda-se a jornada.

Do riso da criança e da alegria

Despoja-se o ocaso em agonia.

Moses Adam
Ferraz de Vasconcelos, 2503/2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Suor, água e pão

Foto:

http://www.museudapessoa.net/blogs/media/fck/Image/Boiadeiro.jpg


Nobres irmãos e amigos,

Escutai essa canção.

Andando por uma estrada,

Topei-me com um peão.


Ele sobre o seu cavalo,

Sob o sol e no areião.

Resplandecia-lhe a face,

Em seus lábios, a canção.


“Suor mesclado de açúcar;

As cinzas sobre o sertão.

Os pés queimados da areia;

Mãos calejadas do chão.


Se no açude a água é escassa;

Carece, na mesa, o pão.

Não mingua em tão rude terra,

As forças da minha mão.


É dia. Nova labuta

Sob o sol. Eu sou peão.

Um carro de boi, à frente,

Em busca de água e de pão.


Eu tenho a minha palhoça;

Na capela, a contrição;

Das minhas filhas, saudade;

Um sonho e uma paixão.


O sol se pondo mais lindo,

No traço do ribeirão.

Se toldo, o céu - esperança,

Um sinal de plantação.


E eu sigo por longa estrada,

Nos lábios uma canção;

No alforge, a minha viola;

Por companheiro, o enxadão.”


Moses Adam

Poá, Batuíra, 0710/2008

Drácula - uma releitura


Sentou-se triste, olhando a triste lua
Que no poente expõe-se sem sentido
À uma estaca a encravar-se em pele nua...

Um brado agonizante fez-se ouvido,
De angústia e de tristeza inomináveis
Qual cão que sendo morto ousa um grunhido

Que torna a dor e a morte detestáveis;
E assim ardendo em pranto, e condenado,
Sucumbe ao escárnio e ódio intermináveis...
...
O sentimento avulta e, transtornado,
Do sol fulgente, a face ele oblitera
Em um caixão soturno onde, deitado,

As trevas, do seu corpo, se apodera;
E oculto permanece à luz do dia
Esperando uma jovem que sincera

Não tema entrar na triste tumba fria,
E por as mãos na tampa, que lacrada,
Venha ascender o amor que ali ardia.

Na solidão, a lúgubre morada
Onde não teme expor a sua vida:
Os erros e os pecados que, na estrada,

Revelam, desse conde, a vil ferida:
O peito transpassado por trapaça –
No leito, a traição foi desferida.

E assim dormente, os lábios em mordaça,
Não crendo mais no amor ou realidade,
Clama aos céus que desfaça essa desgraça...
...
Nasce o dia. Os algozes da cidade:
Sacerdotes, de um torpe magistrado,
Que em mil faces pervertem a verdade;

Enviam ao demônio o condenado
Por amar e querer, em sua vida,
Um amor que seja eterno e abençoado.

E a turba ignorante e enlouquecida
Ouve atenta a mentira descarada:
- Um demônio vos quer roubar a vida!
...
E essa louca matilha esganiçada,
Crédula de mentiras e de fábula
Lança-se embrutecida, na caçada,

Querendo o rubro sangue desse drácula
Que recluso e fechado em seu castelo
Não sabe que o amor é sua mácula.

E a turba, cada um com seu cutelo,
Água benta, uma cruz e falsidade
Querem dos céus a bênção pro flagelo.
...
A lua nasce e rompe a escuridade
Da tumba em que ele gélido adormece,
Trazendo-lhe mortiça claridade:

Um pouco de fulgor ao que padece.
A tampa do caixão é iluminada
E um raio dessa luz, pura, lhe aquece

O peito onde a ferida está estampada
Em rubra cor – o sangue em sua pele;
Tornando a cruel dor amenizada.

À luz da lua, o amor brada e o impele
A desejar e crer nessa utopia
Que lhe queimando a alma o compele

A buscar quem o livre da agonia,
E faça-se com ele uma só alma
Mudando a eterna noite em claro dia.

Repousa sobre a tampa a rósea palma
Que chamando o convida para a vida
De amores em que goze a doce calma;

Mas logo chega a turba enfurecida
Destruindo o amor puro e sincero.
Tornando a rósea palma embranquecida.

E assim no coração o que era vero
E puro, foi rasgado e estrangulado
Pela turba e a maldita mão do clero.

E na cripta o caixão é abandonado
Em meio aos gritos de ódio e de furor:
- Onde, aquele maldito aqui deixado?

Mas ele, já distante e sem temor
Tendo o seu ser, sincero e transparente,
Olha ao céu: uma estrela em resplendor

E a lua se despede no poente.
Foi-se o inverno. É chegada a primavera!
Se não hoje... Há de ser eternamente?

Procura em vão fugir dessa quimera.
No peito uma esperança: a fria estaca!
É o último desejo que quisera...

“Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.”

Moses Adam
F.V.mq., In. 09.05.2009 – Tm. 13.05.2009 -02h45

segunda-feira, 8 de março de 2010

Toque de Midas

Foto: http://2.bp.blogspot.com/_Nt7cigcG4VE/ShQ5zQmW4DI/AAAAAAAAAK4/_IAR5w0Utuw/s400/midas-touch.jpg

Certa vez ouvi uma história
que me chamou a atenção.
Uma história tão antiga,
mas que traz uma lição...

Houve um deus chamado Baco.
Se deus, ou se demônio, ninguém sabe.
Sabe-se apenas que era um beberrão alegre e benevolente.
Procurava Sileno, o seu mestre e pai de criação,
que, pela constante bebedeira, perdera-se pelo caminho...
Ah... Midas. Midas, o rei... encontrou-o, e o reconheceu.
Trouxe-o para o palácio, onde o tratou com imensa hospitalidade.
Foram dez dias e dez noites de festas e intensa alegria;
e, então, conduziu Sileno para a sua casa.
Baco, tomado de alegria pelo regresso do seu mestre e pai de criação,
disse para Midas escolher como recompensa o que quisesse, e lho daria.
Ah... o rei. Os seus olhos... os seus olhos brilharam...

- “Se contente estás, ó Baco,
não me negues o pedido.
Uma cousa apenas peço,
e que eu seja atendido:

Que ao toque das minhas mãos
tudo seja transformado
no mais puro e fino ouro...”
O pedido tresloucado.

Embora triste com o insensato pedido,
Baco concedeu, o que lhe fora rogado.
E Midas... Ah, o rei...
partiu alegre e jubiloso, seguindo o seu caminho,
pois tudo o que tocava transformava-se em ouro.
- Ó que bênção... que bênção, pensava ele.
- Eu, o mais rico de todos os reis.
E assim, retornou ao seu palácio.

Um banquete prepararam
com tão finas iguarias
para o rei comemorar
a melhor das alquimias.

Patos, faisões e cervos assados;
peixes, leitões e vinhos rosados...
Tudo em ouro foi transformado.

Foi então que percebeu,
já quase desesperado,
no pedido que fizera
fora tolo e tresloucado.

Pois, se atendido em seu pedido,
não encontrou alegria;
pois não há ouro que preencha
o desejo de uma alma vazia.

Uma releitura da estória do Rei Midas

Moses Ben ADAM
Ferraz de Vasconcelos, 0307/2009